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LAVA-JATO FAZ CADEIA DE PETRÓLEO E GÁS DIVERSIFICAR ATUAÇÃO

03 DE Agosto DE 2015

A revisão dos planos de negócios da Petrobras, os reflexos da Operação Lava-Jato e o aperto fiscal do governo federal têm feito pequenas e médias empresas adotar uma série de estratégias para reduzir os impactos desse momento conturbado que atinge o setor de infraestrutura. Além de abertura de novos negócios e da diversificação da carteira de clientes, esses empresários buscam capturar oportunidades que surgem num período em que as grandes empresas procuram enxugar custos.

No novo plano de negócios, a Petrobras estima investir US$ 130 bilhões entre este ano e 2019, cerca de 40% abaixo da projeção anterior. Aproximadamente 85% do valor serão aplicados em exploração e produção. Nos últimos anos, a empresa tinha previsto investir mais de US$ 200 bilhões em cinco anos.

A Petrobras é o principal cliente da Radix, uma empresa de engenharia e software que oferece serviços e soluções de tecnologia, desde sua criação, em 2011. Com sede no Rio e escritórios em Belo Horizonte (MG), Curitiba (PR), Foz do Iguaçu (PR) e Houston (EUA), a Radix percebeu há três anos que a companhia estatal já vinha reduzindo o ritmo de negócios em algumas áreas e estava concentrada nos projetos de refinarias e plataformas.

Naquele momento, a empresa decidiu partir para outros serviços. Quando uma petroleira começa a perfurar poços, costuma destinar parte da sua receita para pesquisa e desenvolvimento, e para isso precisa gerenciar uma ampla gama de convênios com universidades e fundações. "Passamos a participar de licitação para oferecer à Petrobras essa gestão de convênios, o que nunca tínhamos feito", conta o presidente da empresa, Luiz Eduardo Rubião.

Em paralelo, a empresa aproveitou sua estrutura nos Estados Unidos para aumentar as relações comerciais com outras petroleiras, além da Petrobras. "Fortalecemos nossos elos com a Chevron, que já responde por 10% dos nossos negócios, e com a Exxon Mobil ", destaca Rubião.

A Radix também diversificou sua atuação, passando a buscar acordos em outras áreas da indústria, como a de defesa. A participação da Petrobras, que chegava a 70% da receita há três anos, caiu pela metade. O faturamento deverá chegar a R$ 75 milhões nesse ano, alta de 40% ante 2014. "Estamos com negócios em mineração, defesa, serviços para a indústria de cultura, passamos a olhar outros setores além de óleo e gás", destaca o executivo.

A diversificação e o aumento da receita não tiraram a Petrobras do foco dos negócios da Radix. Ao contrário. A empresa está se preparando para ganhar mais contratos com a estatal nos próximos anos. "Nesse momento de queda, estamos fortalecendo nossa área de engenharia, nos últimos três meses, contratamos 20 engenheiros. Assim, quando a indústria e a Petrobras retomarem seus negócios, quem estiver preparado para atender dará um salto. Portanto, estamos nos antecipando a essa retomada", afirma Rubião.

Com presença significativa no Rio de Janeiro e oferecendo serviços de manutenção predial, gestão de facilities, contratação de mão de obra temporária e limpeza e conservação de edifícios comerciais, a Personal Service tem uma carteira de clientes que reúne shoppings centers e grandes empresas. No início do ano, a companhia, que tem uma representação em Macaé, no norte fluminense, importante polo petrolífero, notou aumento do desemprego na cidade e uma busca intensa de fornecedores de equipamentos por redução de custos.

"Triplicamos nossos negócios nesse ano nas sedes corporativas e nas bases logísticas em que trabalhamos em Macaé", afirma o diretor executivo da Personal Service, Luiz Garcia. Para atender aos novos contratos, foram contratadas 1,5 mil pessoas até o início de julho. "Fechamos com a Petrobras e com seus fornecedores, há um grande interesse em redução de custos", destaca. Para ele, o mercado de óleo e gás continuará tendo um papel relevante na economia. "Estamos atentos ao que se passa nele, mas ele continua sendo promissor."

Para Roberto Macedo, sócio da Armtec, companhia nacional de alta tecnologia que desenvolve sistemas de robótica para os setores de energia e defesa, o potencial do segmento é alto na área de óleo e gás. Apenas em robótica submarina, entre 2009 e 2010, foram gastos entre US$ 300 a US$ 600 milhões por petroleiras brasileiras. Em conjunto com universidades do país e órgãos do governo, a empresa vem desenvolvendo uma série de novas tecnologias, como uma nova geração de robôs que podem atuar no controle de incêndios em plataformas ou plantas industriais, com capacidade para despejar 4.200 litros de água por minuto.

No radar, estão as cadeias de petróleo e de defesa. "A Petrobras ainda não é um cliente direto, a competitividade da indústria nacional de máquinas e equipamentos está ameaçada pelos custos de produção", observa. Por conta do custo Brasil, uma máquina fabricada aqui sai 37%, em média, mais cara do que uma americana ou alemã.

Na área de defesa, o aperto fiscal reduziu o orçamento do Ministério de Defesa, o que fez a Armtec redefinir seu planejamento na área. Passou a cortar as operações de risco de desenvolvimento de novos projetos e a reduzir sua participação em novos negócios. Para diminuir o impacto da retração econômica, a empresa de robótica ingressou em uma nova área em janeiro: elaboração de projetos, o que permite um ciclo de receita mais curto, ampliando o capital de giro.

"Essa área nova de serviços já responde por 30% da receita. Desenhamos, fabricamos e desenvolvemos o projeto sob medida para o cliente, isso nos permite ter capital mais rápido do que se ficássemos só na fabricação. Não dá apenas para produzir, seria inviável no cenário atual", aponta o empresário.

Para Tessa Luz, sócia da Comatrix, butique de gestão que estabelece boas práticas para empresas, o foco das companhias é a eficiência. A Operação Lava-Jato se soma ao momento de revisão dos planos da Petrobras. Isso tem levado à queda de faturamento em vários setores da indústria em um contexto em que os custos estão subindo, como energia elétrica, combustível e mão de obra. "Muitos clientes estão pressionados pela crise e a saída é aperfeiçoar controles e custos, segurar investimentos e não se descuidar", avalia.

Há um outro recado que tem sido dado: o momento atual, em que a receita é incerta e os custos são crescentes, tem sido bom para renegociação seja com fornecedores, seja com bancos. "Este é um momento em que renegociar é possível. Bom se preparar para um inverno longo: o próximo ano também tende a ser tão complicado quanto este", observa Tessa Luz.

Fonte: Valor Econômico/Roberto Rockmann | Para o Valor, de São Paulo